quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Amanhã

Olhe, menina, há algumas coisas que eu preciso lhe dizer.
Você ainda está caminhando devagar, anda longe de onde realmente quer chegar. Vai haver muitos desvios e, eu sei, a estrada é traiçoeira.
Mas ouça-me bem: desespero é pedra em que tropeçam os ansiosos.
Então respire… e tome seu tempo. Eu lhe garanto que, daqui da frente, o ângulo das coisas acomoda melhor as vistas e amacia um pouco mais o coração.
Criança que é, ainda vai se irritar muito com as rasteiras que o tempo vai dar em seus planos. Mas aconselho acostumar-se logo com isso, antes que perceba que, passados alguns anos, a coisa desanda ainda mais. E não há nada que se possa fazer.
Não se trata de afagar o comodismo! Rejeitar a desesperança nada tem a ver com cruzar os braços e deitar sobre os trilhos do trem.
É só que todo este espaço de tempo entre nós suaviza a percepção de muita coisa para mim. E é por isso que olhar para trás e enxergar você aí, descabelando-se por nada, preocupando-se com o que hoje me faz sorrir, conforta-me profundamente.
É tempo. Tudo é tempo. E tempo vem.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Nada

Em coração que ninguém mora, não há sentimento que faça barulho.
Então talvez por isso todos eles resolvam gritar ao mesmo tempo.

E, nessa disputa de brados, Autonomia, Independência e Egocentrismo, que moram fora, intrometem-se achando que se bastam, tornando qualquer outro sentimento desnecessário.
E será que vai doer, já que afirma tal desnecessidade?

Vai vendo. No decorrer da vida, nada nunca dói. Ainda que nada se sinta.

domingo, 28 de agosto de 2011

Os Anos Vão Se Passando...

A vida é bonitinha.
Sim, se você quiser, ela pode ser bonitinha. Ela pode ser uma gracinha!
Porque afortunado mesmo é quem sabe perceber a fortuna que tem.
Está na buganvília que colore o outro lado da janela. Está no bebê que ri sem parar, mesmo sem ter um par de sapatos para proteger os pés do cascalho. Está naquela coisa que você queria tanto, e que saiu exatamente como desejava.
Os anos vão se passando e eu ainda não conheci ninguém que tenha sido capaz de me convencer de que existe motivo suficiente para não se sorrir ao menos uma vez todos os dias.
Aprendi a deixar pra lá, aprendi a não me importar. Aprendi que existe tanta gente, mas tanta gente nesse mundo, que não é possível que não vá ficar tudo bem. Aprendi que cada segundo é a chance perfeita de mudar o que se quer mudar. Mas, acima de tudo, aprendi que, não importa para onde se olhe, sempre será possível enxergar algo de bonito.
Então se posso me ater aos mínimos detalhes, por que me ater aos feios, aos que me incomodam?
Ser água com açúcar de vez em quando é bom também.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Questão de Caráter

Covardia me envergonha. Sustentar o que realmente se acredita é tão essencial quanto o próprio acreditar. Isso nada tem a ver com impossibilidade de mudança de crenças. Mas, se acredita, defenda. Se sente, honre o sentimento.
Mas covardia... Covardia me envergonha.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Ansiedade que Precede o Final

Arrepiar-se.
Prometer o auge,
Permitir-se ser escalado,
Degrau por degrau,
Curva por curva,
E, avistando o ápice,
Parar.

Contorcer-se.
Fingir anuência,
Pedir.
Tato por tato,
Língua por língua.
E, nessa falsa entrega vagarosa,
Esfriar a fervura.

Porque bom mesmo é o atraso das coisas.
Nada de bom há de vir da inimiga da perfeição.
E, mestre que sou,
Prefiro delongas,
Prefiro o sabor das pausas.

E é esta certeza que me move,
A de que o final é definitivamente o melhor de tudo,
Pois é ela que me permite deliciar-me com a espera pelo fim.

domingo, 3 de julho de 2011

Novo Ataque do Coração

Quando se tem uma bagagem relativamente grande, passamos a ficar mais exigentes com quem escolhemos para ter por perto. Não basta apenas frequentar os mesmos lugares, conhecer as mesmas pessoas ou gostar das mesmas bandas. O coração pede objetivo. Aquela pessoa que vai estar ali para nos fazer bem, alguém que nos divirta de maneira atípica, ao mesmo tempo que constrói a vida com propósitos que, de tão parecidos, poderiam muito bem ser os nossos próprios.
É aquela pessoa que, sabemos bem, tem mil e um defeitos – poderíamos até citá-los em ordem alfabética! –, mas com nenhum que seja capaz de nos desanimar. Nenhum que consiga superar o bem estar que essa pessoa nos proporciona.
Então chega esse momento da vida em que já conhecemos muito bem nossa exigência. E andamos de mãos dadas com ela. É aquele ponto em que passamos a não aceitar nada menos que aquilo.
E é por isso que nos assustamos.
Assustamos quando percebemos que a exigência – aquela sábia e rígida exigência! –, que nos deixou na mão uma única vez há muito tempo, furou a guarda novamente.
E parece impossível demais para se acreditar, mas o fato é que chegou um novo perfeito alguém. Dessa vez, perfeito para quem somos agora, agarrados à nossa nova exigência.
E é péssimo admitir que fomos convencidos mais uma vez! Encarar o mundo inteiro e, a contragosto, reconhecer: “Vocês tinham razão. As coisas melhoraram de fato. Encontrei alguém que me faz mais feliz!” não é fácil.
Mas também é impossível não nos convencermos de uma coisa: estamos sofrendo um novo ataque do coração.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Prazos de Validade

Analisar as manias que as pessoas têm é algo no mínimo divertido de se fazer. Minha mãe, por exemplo, tem mania de guardar as coisas. Mas calma. Não é um "guardar" de acumular tralhas, ou de colocar no lugar tudo que vê pela frente (essa mania, ela só tem quando visita meu quarto). É um "guardar" relacionado às coisas que ela considera mais preciosas.
Um hidratante corporal de alguma marca famosa e cara que, para uma pessoa normal, duraria cerca de seis meses, para minha mãe, perde-se pelo vencimento do prazo de validade sem que ela tenha usado sequer metade do produto. O mais engraçado é que isso acontece com três hidratantes ao mesmo tempo. É como se ela pensasse que determinada coisa fosse valiosa demais para ter seu uso banalizado. Minha mãe viveu boa parte de sua vida com condições financeiras bastante limitadas, para dizer o mínimo. Penso vir daí essa supervalorização do uso de certas coisas.
Não é de todo um mal, esse comportamento que ela tem. É bom mesmo que saibamos dar valor ao que adquirimos em nossa vida. Perder esse valor é perder a noção do nexo entre esforço e aquisição, o que acaba sempre resultando em um inconsiderado modo de lidar com as conquistas da vida - passa-se a pensar que tudo é qualquer coisa e que qualquer coisa é muito fácil de se conseguir.
O único problema é que minha mãe, com tantos hidratantes maravilhosos em seu armário, não se permite aproveitá-los como poderia. Ela poupa tanto as coisas boas que tem, que quase acaba por não utilizá-las, dando-se conta somente depois de já estar vencida a validade.
Nós todos temos essa mania. Vamos guardando a vida para usá-la somente de vez em quando, temendo banalizar o que ela nos oferece de bom. Nos raros momentos em que nos permitimos utilizá-la, realmente sentimos o prazer que ela é capaz de nos proporcionar. Mas, na maior parte do tempo, estamos na verdade vivendo um automatismo dos nossos dias (algo também conhecido como rotina), que passam a ser compostos tão-somente pelo resto - o que não se usa. Nossa existência fica resumida aos extraordinários instantes de felicidade e prazer que nos permitimos experimentar enquanto vamos "pulando" a vida.
Pare para pensar: como é sua rotina? No meu caso, mais de setenta por cento da minha semana se resume a: trabalhar pela manhã, estudar à tarde, praticar exercícios e ir à faculdade à noite. Em meu trabalho, por exemplo, há momentos em que o que faço durante uma hora inteira é simplesmente repetir os mesmos comandos, alterando apenas alguns números. O automatismo é tão nítido, que sou capaz de refletir sobre diversas questões da minha vida enquanto minha mão vai cumprindo seus deveres como se tivesse vida própria. Sou capaz de refletir sobre como estou vendo meu tempo passar bem diante dos meus olhos exatamente no momento em que ele passa.
Pode ser que eu esteja errada. Pode ser que seja mesmo desse jeito e que não haja nada de anormal em se ter momentos pingados de felicidade. Mas me parece bastante errado que tenha que ser assim. Acho difícil não esperar que a vida passe disso para algo melhor, ainda que sejam alguns respingos a mais de alegria em meio à rotina. Então eu acho válido tentar, sem medir esforços, fazer o que se quer de verdade. Nada tem a ver com despir-se de todas as responsabilidades e adotar maneiras inconsequentes de gozar a vida.
Tenho certeza de que minha mãe foi e é muito feliz. Mas, particularmente, sou o tipo de pessoa que prefere usar e abusar dos hidratantes antes que o meu prazo de validade vença e eu tenha aproveitado tudo menos do que realmente poderia.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Cães e Gatos


Seis Coisas que Aprendi com um Cachorro

1. Ao perceber o mínimo esboço de um sorriso no rosto de um estranho, pule e balance a cauda freneticamente, como se ninguém mais fosse capaz de lhe proporcionar felicidade igual.
2. Sempre que seu dono se ausentar, não coma, não durma, não brinque, não se permita ser feliz. Definhe-se tão rapidamente quanto seu coração o faz.
3. Rosne, lata, mostre os dentes e faça muito barulho assim que outro cachorro se aproximar de seu dono. Não pare até que ele vá embora.
4. Quando estiver a se divertir com seu dono, fique contente além da conta. Ame-o com a certeza de que ninguém o fará mais feliz e implore sempre por qualquer quantia mínima de atenção que ele puder lhe dar, mantendo sempre em mente que isso é a única coisa que o faz feliz de verdade.
5. Vá sempre correndo assim que seu dono murmurar o seu nome. Esteja sempre pronto para ir aonde ele estiver, no exato momento em que ele o chamar, e fazer o que ele bem entender (mesmo que isso seja buscar um graveto com a boca).
6. Contente-se com a vida assim. Seu dono é a melhor coisa que lhe aconteceu e você jamais vai sobreviver sem ele.
Seis Coisas que Aprendi com um Gato

1. Ao conhecer um estranho, meça-o de cima abaixo, já preparado para o que ele puder lhe fazer de pior. Ronrone e enrosque-se em sua perna somente depois de ele ter provado ser capaz de lhe trazer felicidade também.
2. Na ausência prolongada de seu dono, sinta falta de seu cafuné e da maneira como você se aconchegava ao redor dele e de como se faziam felizes. Mas, conforme o tempo passa, viva sua vida o mais regularmente possível, utilizando a rapidez com que a solidão toma conta de seu peito para acelerar sua busca por um novo alguém que também saiba lhe fazer feliz.
3. Jamais saia de perto de seu dono porque outro gato se aproximou dele. Mostre que é superior a ele sem se exaltar. Se o intruso não for embora, revele sua capacidade de se adaptar e demonstre que quem é amigo de seu companheiro pode ser seu amigo também.
4. Nos momentos felizes com seu dono, aproveite: dê e receba carinho sem medidas. Mas, assim que se cansar, permita-se tempo para dar uma volta e relaxar apenas com sua própria presença, concedendo também a ele esse momento de independência. Assim que bater a vontade, volte para mais um pouquinho dessa troca de carícias que é tão boa!
5. Vá até seu dono - correndo, andando... como a vontade mandar - quando bem entender (ou quando ele lhe chamar com muito jeitinho). Responda não somente a um nome, mas a todos os apelidos que ele lhe der, desde que a entonação seja de carinho e amor.
6. Contente-se com a vida que você tem porque ela é sua! Seu dono é um amor e você pretende tê-lo por perto enquanto fizerem bem um ao outro. Não se preocupe porque, se essa vida não estiver boa o bastante, você tem certeza de que será capaz de conseguir outra tão boa quanto no momento em que quiser.
"Nada é mais incômodo para a arrogância humana do que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam. O só amar a quem os merece. O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência. O gato não satisfaz as necessidades doentias do amor, só as saudáveis."

Artur da Távola

domingo, 3 de abril de 2011

Desvendar

Chega a ser irônico. Ser esse paradoxo ambulante. Vendado paradoxo. Não é como se não gostasse de alguma forma, mas o incômodo sempre pesa mais na balança que o prazer. É só que… é intrínseco a mim. E eu não sei se quero me despedaçar agora.
Este criticismo crônico, doentio, louco… Este perfeccionismo que sempre falha e não sabe ser perfeito… Tudo possui uma função específica. Elimina todas as possibilidades que me aparecem como uma peneira exacerbadamente fina. Ao mesmo tempo, agarro-me a todas essas mesmas possibilidades. Porque, se não derem certo, que mais dará?
A facilidade está ali, do outro lado. No outro polo do ímã da seletividade aguçada. Mas a um preço caro. Em moedas de conformismo. E ainda não sei se transaciono dessa forma. Ainda…
Arde apenas ao lembrar que a única solução possível está do outro lado, em mãos opostas. É desesperador. Por isso, imploro: desvende-me. Como se não fosse fácil. Pois se achou que era, não me conhece nem um pouco.
Desvende-me como se fosse o que mais quisesse na vida. Como se sua curiosidade – e não sua libido – fosse seu combustível. Desvende-me para que possa me surpreender. Porque eu tenho certeza de que lhe surpreenderei também.

domingo, 20 de março de 2011

Contextos

          Em que contexto você está inserido?
Acredito que há certo ponto na vida em que todo mundo define – na medida do possível – quem de fato é nesse mundo. Determina-se o próprio papel nessa pequena porção de existência.
Não é algo tão concreto como soa; um objetivo, um caráter e ponto final. Essa definição está muito mais ligada à análise de quem se é e o que se pretende, que a uma concreção de objetivos em si. Não é também um marco tão nítido assim. Vem sem se perceber, mansa e gradualmente, de acordo com a maturidade e reflexão de cada um. É como se chegássemos a uma fase de consciência tal em que constantemente nos pegamos questionando: “Opa. Espere aí. O que estou fazendo é certo? Estou fazendo mal a alguém? Eu quero isso para mim? O que eu quero fazer da minha vida?”.
Reflexão que culmina em ponderação entre atitude e objetivo.
Considero um dos processos mais importantes pelos quais a humanidade deve passar. Contudo, faz-se necessário levar em conta a relevância do contexto em que a pessoa se insere.
O que eu quero dizer é que, se você é alguém que reflete sobre sua vida e sobre quão bem está desempenhando seu papel nela, é preciso lembrar de outros fatores antes de concluir qualquer coisa. Circunstanciar a situação.
É legal abranger essa questão pelo lado financeiro porque é o mais visível e explicativo. Veja bem: utilizando as perguntas ali de cima como exemplo, pense como seria respondê-las se você fosse alguém de classe média alta, sustentado pelos pais com os melhores valores materiais que você pode pensar agora. Agora faça o contrário: pense como seria fazer o mesmo se fosse morador de uma favela do Rio de Janeiro, alguém que não tem acesso a educação de qualidade, quanto mais alimentação de qualidade.
Não estou tentando martirizar qualquer classe social. Muito pelo contrário. Mas não consigo deixar de pensar quão condicionados estamos pelo meio que vivemos…
Por exemplo, vamos chegar ao extremo. Você nunca matou ninguém, mas isso se deve ao fato de que você realmente acredita que essa é a postura certa ou porque você tem medo de qualquer consequência? Ou porque você nunca precisou cogitar essa possibilidade?
É nesse ponto que quero chegar. Novamente, pondere as respostas a essas perguntas, colocando-se verdadeiramente no lugar dos dois extremos de classes sociais. Você continuaria não matando ninguém se morasse numa favela do Rio de Janeiro? Você continuaria a ter o bom comportamento que tem se fosse obrigado a enfrentar um cotidiano de mazelas sociais, violência extrema e ausência de segurança?
Por outro lado, você continuaria mantendo os valores e princípios morais que tem, caso vivesse em uma mansão, rodeado de empregados a sua disposição e todos os bens materiais que desejasse? Se você tivesse tudo o que agora pretende trabalhar para ter, você continuaria a valorizar seu trabalho da mesma forma?
O que estou tentando mostrar é que é muito fácil permitir-se ser condicionado pelas circunstâncias que o rodeiam. É muito fácil para uma criança pobre que mora na favela e que lida com a violência e a injustiça todos os dias passar a ser conivente com essa situação e passar a ser violenta e injusta ela também.
Da mesma forma, é muito fácil para um adolescente rico que mora numa mansão com todo o luxo que quiser (e sem as obrigações que não quiser) ignorar valores como empatia, amor ao próximo ou simplesmente o valor do esforço e do trabalho, a fim de conseguir o que deseja, em vez de receber o que conseguem para ele.
Curto e simples: é muito fácil condizer com o que lhe cerca.
A conclusão clichê que podemos tirar disso tudo é que, não sendo cientes dos contextos alheios, não podemos nunca julgar com severidade qualquer atitude ou comportamento de outrem.
E, não menos inserida nos próprios contextos que qualquer outra pessoa desse mundo, a única proposta que posso fazer é que todos levem em consideração o que os cercam. Olhar um pouco mais ao redor e menos para a frente tão-somente, lembrando sempre que só se é quem se é – ou só se age como se age – em razão dos contextos que o abençoam ou amaldiçoam.
Mas conselho de verdade é o de tentar extrapolar seu contexto, sempre seguindo rumo ao que lhe acrescenta. Alguém que, condicionado às piores situações imagináveis, age em desconformidade com isso e faz a coisa certa é, definitivamente, uma pessoa dona de caráter especialíssimo e digno de (pelo menos a minha) admiração.

O Grudento

 A tarde chegava ao fim num incomum dia nublado de fim de verão. Eram duas moças apenas. Conversando, rindo, empolgando-se com as programações da viagem que estavam para fazer. Até que, numa fração de segundo, não eram mais somente duas: eis que surge um terceiro elemento – maldito elemento!
Enquanto esperavam, sentadas no carro, por uma outra amiga, tocou o celular da jovem que estava no banco do carona. Inacreditável. Mal se passaram duas horas da mensagem anunciando que ligaria “mais tarde”, e lá estava ele.
– É desespero. Você precisa aprender a sentir o cheiro dessas coisas. – disse a motorista.
Procurando absorver toda a paciência que flutuava ao redor da amiga que não era atingida por seus problemas, a dona do celular simplesmente silenciou o telefone e deixou a situação de molho por mais algumas horas.
Cento e quinze minutos mais tarde, cada moça já em sua respectiva casa, vibra novamente o celular. Assim que a ligação cai por ninguém tê-la atendido, soa o alerta de uma nova mensagem de texto.
E, no meio de sua rotina atribulada e da correria em que estava imersa para não chegar atrasada como de costume, parou.
Abismada, pôs-se a analisá-lo à procura de qualquer indício de ansiedade patológica que pudesse ter despercebido no pouco contato que tiveram.
Não havia nada.
Apesar da falta de atração que ela sentia, reconhecia nele características que davam a ilusão de ao menos algum vestígio de independência e autossuficiência.
Ele era um qualquer, conhecido dessas festas em que a maior atração é o álcool em abundância. Num lance de sorte, enquanto ela estava embriagada demais para passar o número falso que sempre passava, ele conseguiu seu telefone e não parou mais de ligar.
Oito anos de vantagem na identidade dele, dez anos de vantagem na maturidade dela.
E só o que ele conseguia fazer com toda a “atenção” que dispensava a ela (disfarce para “insistência”) era disparar a diferença no placar. Na pontuação dela, é claro.
“Desinteressantíssimo”, era só o que ela pensava.
Pior que um homem que não telefona quando deve é um que telefona quando jamais deveria.
O conselho de outra amiga:
– Fique feliz. Se um cara tão aleatório acaba de te conhecer e fica louco com você desse jeito… gata, no mínimo você é muito gostosa.
Não era uma recomendação suficientemente aplicável, mas era pelo menos uma leve massageada no ego. E isso (quase) nunca é demais.
Rejeitadas as várias ligações, havia sempre uma mensagem de texto à espera, implorando o retorno do telefonema.
“Haja falta de amor-próprio!”
E tudo que ela conseguia pensar a partir daquela epifania era como jamais conseguiria se doar a alguém que não tem vida própria. Ou pelo menos parece não fazer questão de ter. Seu último desejo era ser o centro incondicional da vida de alguém.
Como num clique, lembrou-se do atraso, mas ainda arranjou tempo para se perfumar. Antes de bater a porta do quarto, sentiu mais uma vez o vibrar do celular dentro da bolsa.
Fechou a porta, correu escada abaixo e o máximo que o desprezo lhe permitiu pensar foi:
“Livrai-me de todo o mal, amém.”

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Ensaio Sobre Limitações

         “Aprender e ensinar são as melhores coisas que um ser humano pode fazer”, disseram-me uma vez. Ou pelo menos era algo nesse sentido. Eu não poderia concordar mais. Valorizar esse intercâmbio de conhecimento é valorizar uma incessante busca por melhorias. Morais, espirituais… classifique como quiser. A questão é que alguém que não objetiva reciclar-se, peneirando apenas o construtivo psíquica e moralmente, fatalmente vai estagnar. E, sinceramente, não entendo a lógica de alguém que não prefere evoluir.
         E é a partir desses valores que adquiri com o tempo que surgiu minha paixão por conversas – conversas boas, daquelas em que você admira ou valoriza potencialmente a outra pessoa; daquelas em que você gosta de ouvir, tanto quanto gosta de falar, porque, ainda que não concorde com a opinião alheia, vale muito a pena escutar e absorver que quer que seja que o outro saiba sobre o que está sendo discutido.
         No quesito “conversas boas”, então, tenho uma amiga que se destaca bastante. É raro eu dar uma opinião que já não tenha sido discutida com ela, ou que ela não pense de maneira semelhante. Gosto de pensar que somos como peneiras nesse mundo, e que precisamos saber bem como definir nosso “processo seletivo”. Bom, eu acho que nunca conheci uma peneira tão boa como a dessa menina.
Em algumas de nossas boas conversas, dentre assuntos e mais assuntos sobre o vai e vem de nossas vidas, mas principalmente em momentos em que me encontro encurralada por situações a mim infligidas, ela sempre gosta de lembrar os dizeres de uma outra amiga: “não vale a pena se deixar afetar por limitações que não são suas”.
         É. Eu acho válido. Mas sabe aquela coisa de teoria versus prática? Pois é. Quero dizer, é uma coisa que todo mundo sabe (ou pelo menos deveria saber) e que todo mundo deveria aplicar, exceto pelo fato de que não é assim, tão simples. Ouso dizer que é praticamente impossível.
         Veja bem, pessoas vão magoar, irritar ou meramente afetar você ao longo de sua vida. Isso é fato. Você pode até minimizar os efeitos que elas lhe causam - e, disso, eu sou totalmente a favor -, mas bloqueá-los, jamais. Além disso, as limitações dos outros são grande parte do que vai fortalecer seu caráter no decorrer da sua existência. Sempre que alguém o decepcionar, por exemplo, você aprenderá com a limitação dessa pessoa que não deve esperar muita coisa dela, ou até mesmo de ninguém.
O caso é que eu – ainda que me identifique essencialmente com essa minha amiga, chegando a enxergá-la como reflexo da minha alma – sempre entrei em conflito com aqueles dizeres. Isso porque eu simplesmente não consigo aplicá-los a minha vida. Acho que nunca consegui não me deixar afetar por limitações alheias - desde que significativas fossem. Não que eu seja assim, tão vulnerável (na verdade, quase não o sou), mas as pessoas com quem me importo conseguem, sim, com suas limitações, afetar consideravelmente minha vida. E eu não realmente tenho certeza de que deve ser diferente. Melhor dizendo: de que não vale a pena. É aquele velho clichê de mensagem virtual que a terceira idade adora encaminhar: “decepção não mata, ensina a viver”. Ínfimo. Básico. Ridículo, até. Mas que realmente se aplica.
Passar por apertos (especialmente aqueles colocados por outras pessoas) é, de fato, o que ensina a viver. Cada rasteira da vida deixa suas pernas mais fortes para a próxima. A Psicologia por si só explica que pessoas que não passam por muitos problemas tendem a desabar no primeiro simples que aparece.
Enfim. Acho que vou sempre ser alguém que incentiva e preza uma dosezinha de insensibilidade. Não acho que tudo tenha que lhe afetar e que você deva parar para sentir cada baque mínimo que a vida lhe proporciona, não mesmo! Ainda assim, acho que também nunca vou me arrepender de ter sido (e ser) de certa forma sensível às decepções e outras aflições que fui (sou) obrigada a viver. E não acho que deveria ser diferente para ninguém.
Conheci poucas pessoas realmente insensíveis nessa vida, mas uma das coisas mais importantes que aprendi com elas foi que insensibilidade demais não leva a lugar algum. A empatia desaparece e, com ela, a compaixão e todos os sentimentos que nos levam ao amor ao próximo. Apatia gera indiferença e acaba por levar a um individualismo exagerado. Sou suspeita para falar, pois cresci com um pai que não fica um dia sem lembrar a necessidade de se pensar na coletividade, por vezes, em detrimento da unidade, mas, para mim, individualismo é o primo bonitinho do egoísmo. E isso eu acho que jamais vou querer para mim.