sábado, 24 de junho de 2017

Nada Simples

Aprendi a ter palavras simples.
Eram simples também os sentimentos, por isso não fazia mais sentido flertar com a prolixidade. É assim que o amor é, quando despido.
Problema é que, na simplicidade, esqueci-me. E isso é mesmo rotineiro, já sabemos, certo?
Não sou simples. Sou embaraçada demais para ser.
Ninguém jamais será capaz de dizer o contrário. E isso é o mais literal que algo pode ser quanto a algo não ser necessariamente bom ou mau…
Não vai haver neste mundo quem desate meus nós. E isso é algo maravilhosamente admirável!

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Senhora na Janela

Toda tarde, existe um de meus repetitivos pousos à janela que sempre se depara com a figura de uma senhora num dos prédios ao fundo do meu. Ela está sempre a fumar, sempre em mesmo horário, sempre contemplando a rua. Já lhe sorri algumas vezes, mas a distância é considerável e não acredito que eu seja mais interessante que todo o universo que ela tem a observar.
Há algo de intrigante no saborear de suas tragadas diárias. Muito menos nelas em si, que na minudência com que observa a rua. Não é uma senhora jovem, nem velha. Tem um cabelo amarelo-ovo emplumado que lhe retrocede algumas décadas no tempo. Mas nada disso convém, pois o que me importa apenas é saber o que rebenta das reflexões de sua cabeça.

E, nisso, percebi nascida em mim o capricho de gravar-me naquela mulher.

Uma vez deitei-me com um rapaz que era apaixonado em saber dos outros. Tudo o que queria, perguntava. Era uma verdadeira esponja de saberes – inda que também amasse falar de si. Ele insistia que eu carecia de egoísmo. Não num sentido perverso, é claro, mas no intento de pensar menos nos outros e mais em mim. Um individualismo do bem. Do que não tiro parte de seu mérito, aliás.
Ocorre que não é nato em mim o propósito clarividente de absorver das pessoas o quanto têm a me doar. Meus poucos e arrastados anos foram feitos de absorções casuais, como que acessórias a um laço maior estabelecido, antes, por mim. O que sei, de fato, é imprimir-me em todo canto que passo. Canto, coração, alma. Sei que deixo sempre vestígios (ou cicatrizes) de mim. Prefiro deixar-me em outrem a, antes, tomá-los de si.

Sobre a senhora da janela, quero conhecer suas notas mentais mais latentes; porquanto, sabendo, permitir que também ela saiba sobre mim.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Aquela Pouco Constante

Vividamente se lembrava de ter sido doce um dia. Ter sido. Ter-se ido.
A arritmia de um peito aberto era redescoberta. Melhor: relembrada. Mas nada como o toque especial de um amor maior para a receita de um dramalhão latino barato.
Gastava lágrimas sem medir limites. Sua cota pessoal já devia estar gasta há pelo menos dois amores atrás.
Ar. Faltava-lhe o ar.
Boicotaram, então, a si mesmos. Em transbordando amor, afogaram seus respeitos.
Uma utopia que transcende a humanidade. Falha até para si mesma. Carregou os cacos.
Não que um corte a mais fizesse lá tanta diferença.
De nada adiantava colar o peito em lembranças lindas. A escara final é a que dita o sangramento.
Ainda assim, ensaiava sua velha conhecida tranquilidade dolorida, fruto da força que, não à toa, foi treinada a ter.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Frio Fútil

Bastar-me-ia ser fria. Mas frieza sem base é artimanha, e eu, se optar por jogar, prefiro os sentimentos sinceros – principalmente os ruins. Inda assim, não sou de vestir camisa de embates desnecessários. Cão que ladra não morde.
Indiferença é peça de peso em jogo de afeto, admiro-a. No entanto clamo por lances menos teatrais e mais reais.
Frialdade súbita e desapego obrigado são provas maiores de sentimentalidade que de apatia.
Vou lembrar-me sempre da lição de infante: se se toca todos, beija-se todos, exalta-se todos, a exceção de um, é porque padecem-se neste simples um seus grandes amores.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Tudo Bem

Eu poderia dizer que estava preocupada. Estava ou vivia, já não tinha mais certeza. Que a incerteza da minha vida residia num paradoxo por ser fruto da única certeza que eu possuía de tudo: a de que ainda não tinha vivido nada.
Poderia ter dito que quase gosto da tristeza. Que havia me acostumado aos sofrimentos medíocres. Que nutria uma dor de peito desde não sei quantos anos de idade, uma dor que já havia se tornado quase amiga.
Ou poderia então contar minha coleção de impressões da vida até aquele exato momento. Como a de que, felizes, as pessoas não questionam muita coisa. Ou como a de que as coisas ruins em minha casa só aconteciam em tempos de chuva.
Caberia ali inclusive uma narrativa romântico-dramática sobre meu enorme rol de frustrações infligidas a outros e que, por consequência, renderam escaras de decepção em mim mesma também. Análises psico-familiares seriam bônus.
Enfim, sei que até um gráfico sofrimento-benefício eu seria capaz de elaborar para ele sobre cada amor que tinha vivido em minha vida, na tentativa de explicar aquela impossível paz de espírito.
Mas ali, diante da frieza implícita – mas também ingênua – na velocidade daquela pergunta, embarquei nas convenções sociais.
- Tudo bem com você?
- Sim.
Eu disse que sim.